Amélia Muge: "A voz não vem apenas da garganta. Todo o corpo reage e por vezes, também cala a parte vocal, para se erguer, ele também, como voz."


02 de Novembro, 2022   /   115
Auditório de Espinho | Academia

Amélia Muge, cantora e criadora, regressa a Espinho com o seu novo disco Amélias, depois de ter gravado o documentário com o mesmo nome e centrado na conceção do álbum, em janeiro deste ano, no Auditório de Espinho | Academia (AdE).

Este é um concerto de várias Amélias, um concerto de várias vozes, inspirado no canto feminino tradicional e em grupo, acompanhado pelas vozes e instrumentos de Catarina Anacleto, Maria Ceia e Rita Maria, para ver e ouvir este sábado, 5 de novembro, pelas 21h30.

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Numa entrevista, falou do concerto como ensaio, como performance. Um concerto é sempre um ensaio?

Falei em ensaio para sublinhar a particularidade que estes temas têm de poder muito facilmente estar em permanente construção. Por outro lado, os temas também chamam outras temas já existentes, sejam meus, de outros trabalhos, principalmente os da música tradicional, de literatura oral. As possibilidades são imensas e por isso, vamos experimentando novas coisas de acordo com as possibilidades que os novos concertos também nos dão. Como o Amélias, feito exclusivamente com as minhas vozes, não pode deixar de ter “vozes de mim”, lançadas para o palco, com as quais interagimos, o desafio é estar em permanente testagem do que pode e não pode ser feito, partindo do princípio que as vozes da Catarina, da Rita e da Maria não substituem as minhas. Gosto desta possibilidade de pensar este concerto em aberto. Cada concerto ser uma oportunidade para ir um bocadinho mais além. Isto não tem nada a ver com o não estar seguro o que apresentamos. Tem apenas com a possibilidade de outras soluções poderem ser estudadas e integradas.

Quem são estas vozes, quem são as Amélias? São personagens (individuais e coletivas)? O que representam elas sendo mulheres?

As vozes neste trabalho surgem em primeiro lugar como paisagem sonora. Podem sublinhar em uníssono uma frase, podem harmonizar, podem simplesmente ser apenas um som, seja ele vindo de uma sílaba ou de um mero efeito que faz sentido no ambiente que se vai criando. Mas dou voz a tudo isto a partir de uma ideia básica de servir o texto e de lhe criar densidades várias. Não são experimentações gratuitas, servem um propósito narrativo, que por sua vez, dá voz a um personagem, um sentimento, uma observação do que se vai passando nas nossas vidas, ou nas vidas dos mitos com quem aprendemos a conviver. No concerto essa ideia continua a existir. Só que para lá das vozes já gravadas, há outras 3 mulheres que se juntam e que buscam as vozes que melhor poderão interagir com as que já lá estão. Por outro lado, nem tudo são gravações que nos são lançadas. Isto leva a que outras vozes sejam também presenças solistas. E que possuem um corpo que a palavra anima. Nesse sentido, a voz não vem apenas da garganta. Todo o corpo reage e por vezes, também cala a parte vocal, para se erguer, ele também, como voz. Quando falo nas vozes de mulher não quer dizer que apenas é convocado o universo feminino. Se o é no canto, as temáticas são abertas a toda e qualquer narrativa.

É claro que ao dedicar este trabalho ao canto a vozes no feminino, estou também a evocar o papel sociocultural importantíssimo que esse canto teve e continua a ter nas comunidades em que está inserido e na música.

Como se espelham as raízes, neste disco, no concerto e na Amélia Muge?

As nossas raízes são variadíssimas, complexas, híbridas e estamos sempre a descobrir o que são. Em primeiro lugar, as raízes não são apenas individuais ou mesmo patrimoniais. Tudo tem uma origem, uma sequência no tempo. A música. O canto. A palavra. A imagem. Um objeto. Cada cultura, cada criação artística, se apropria de patrimónios existentes e essa marca de outros tempos e espaços, está presente, mesmo que as pessoas não deem por ela. Está presente, em primeiro lugar, na sua universalidade. É quase necessário haver uma descoberta desse passado, dessas raízes. As raízes, como passado, estão em permanente descoberta. Este CD, como qualquer outro trabalho, meu ou de qualquer outra pessoa, reflete uma confluência de raízes várias.

No que diz respeito a cada um, nós fazemos aquilo que somos. E o que somos vem de muitos lados. Em termos familiares, por exemplo, os meus antepassados são da região do norte (Guimarães, Porto). No entanto, o nome Muge, vem de Santarém e mais propriamente dos concheiros de Muge, do rio com o mesmo nome. Muge é o nome da fêmea da tainha. Pouca gente sabe isso. Eu gosto de estar pelo meu nome (e quem sabe, no passado remoto) ligada a esses concheiros. No entanto, nasci em Moçambique e tive o privilégio, por exemplo, no campo musical, de ouvir os cantos maravilhosos, sobretudo os escutados na zona sul. Havia uma localidade, Zavala, onde costumávamos ir aos domingos, ouvir os marimbeiros. Eram dezenas deles tocando nos seus pianos de madeira, as marimbas ou timbilas, grande parte deles construídos por eles mesmo.

Através do consulado de França, chegava-nos a casa os discos da etiqueta Chant du Monde. Vozes de todo o mundo. Os meus pais, por seu lado ensinavam-nos canções que eles aprenderam enquanto crianças ou na juventude. A tudo isto se misturava a música clássica, os cantos para crianças em disco, em inglês, francês, português e brasileiro. E depois, como já disse muitas vezes, a cumplicidade de ter crescido a cantar com a minha irmã, Teresa. E o termos as duas uma ama que nos levava ao encontro de outras amas e de outras crianças. Elas cantavam na língua local e criavam momentos de partilha, de pertença a um coletivo, que representam para mim, as minhas memórias mais antigas. E estou só a falar de música. As nossas raízes andam sempre um bocado à solta. As referências que vamos aprofundando e que nos remetem para outras épocas e espaços da história do mundo ainda adensam mais esta complexidade identitária. Aliás, neste contexto, gosto mais do termo rizoma, que do termo raíz.

Em cada trabalho que faço tudo isto está presente, até como modo de estar na música. Neste CD, em particular, são de facto os cantos à capela em vozes de mulher que foram o meu ponto de partida. Mas essa matriz cultural, digamos, não está fechada em si mesma. Reage com outros cantos que não os portugueses, com a própria voz falada, com temáticas recorrentes deste património, a sua simbologia, com as tecnologias digitais que também permitem tratar a voz de formas impossíveis de concretizar só a partir da voz acústica. Poderia continuar. Mas é uma conversa sempre inacabada. E por isso mesmo, fascinante.

Este é um trabalho que não é só música, é também ilustração, animação. É importante esta junção de várias áreas (por exemplo, a literatura com a poesia)?

Uma das coisas mais estimulantes do trabalho artístico é o trabalho sobre as linguagens. E embora cada forma de expressão, tenha as suas e até termos que lhe são específicos, todas lidam com formas, logo, todas pressupõem uma gramática que, através da ideia de morfologia, adquire, tantas vezes, uma lógica comum. Se a arte é vida, essa vida começa por acontecer nas próprias formas que são criadas, que têm, a seu modo, que respirar e comunicar com outras.

A partir do meu interesse sobre o que é a comunicação artística, tento sempre perceber que imagens podem acontecer a partir das palavras, que melodias podem surgem a partir da materialidade dos textos, independentemente do significado que possam ter, isto é, que ritmos, que sonoridades podem surgir a partir dos tempos fortes da frase, do número de sílabas, etc.

No fundo, acho que todas as formas, sejam elas plásticas, ou sonoras, ou literárias, criam uma espécie de poética da relação que faz com que as comunicações entre elas aconteçam e permitam o trabalho entre as várias disciplinas artísticas. Esta possibilidade de relação e comunicação entre as várias formas artísticas é para mim tão estimulante que já não consigo funcionar sem ser a vários níveis.

Na prática, é como se, apesar de diferentes, parece que todas ajudam a que a proposta que se está a trabalhar não se feche apenas em meia dúzia de detalhes.

Na antiga Grécia, por exemplo, quando se falava de poesia, isto já significava texto para ser cantado. Os poetas gregos eram compositores e cantores, na sua esmagadora maioria. E também pintavam e desenhavam ou tinham isso em conta, porque, por exemplo, nas tragédias gregas a literatura estava ao serviço do teatro e do canto, teatro que também é imagem.

O modernismo veio trazer uma reflexão preciosa a tudo isto. Infelizmente, o lado mais tecnicista de dividir e pôr tudo em gavetas, cortou muito daquilo que foi uma nova sensibilidade que se foi formando no sentido de toda esta relação entre disciplinas e linguagens.

Mas hoje, de algum modo, mesmo misturado com muito lixo audiovisual - que nada significa para lá do seu débito de carregar no botão - temos tecnologia suficiente para retomar, de uma outra forma, o que foi deixado no século passado, muito também devido às guerras mundiais que tudo devastaram. 

O que move a Amélia Muge?

Vou usar o excerto de dois poemas/textos magníficos e faço minhas as palavras que lá vêm:

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
"Inquietação" (excerto), de José Mário Branco

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
"Fingimento" (excerto), de Fernando Pessoa

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Neste concerto, tudo canta - a voz, o corpo e o coração. Amélia Muge estará em palco, no Auditório de Espinho | Academia, este sábado, pelas 21h30, para cantar um coração que emigrou, e não só. 

Os bilhetes para este concerto estão à venda aqui ou na bilheteira local, na Academia de Música de Espinho.

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